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Com o falecimento de meu querido... Quero dizer; do Baltazar, tudo mudou em nossas vidas. Não tenho mais com quem brigar. Por conseguinte, ando estressada, entediada, aborrecida e com mais uma coisa que não sei o que é. Dos netos vejo, vez por outra, uns sorrisos tolos, no entanto, a mais tola das coisas consiste nas lágrimas que saem de seus olhos nos momentos de lembrança, ou de fraqueza. Da sobrinha, desta, exclusivamente, pois temos outras mais, as reações não são muito diferentes de quando tudo aconteceu; choros, lágrimas, suspiros, risos, ainda que tolos, e mais uma outra sensação que não consigo identificar. Mas esta só acontece quando ela vê as fotografias de um rapaz que não sei quem é.
Agora, o mais interessante de tudo isso, se é que tal coisa seja considerada interessante, que este episódio, o da morte do meu companheiro, não afetou apenas a nós, membros diretos da família. O cachorro uiva todas as noites do dia em que é paga a aposentadoria do Baltazar. Por quê? Que sei lá eu, oras? Bom, quanto ao gato consegui curá-lo de suas intermináveis diarréias, porém, não pára mais de tremer. Estranho isso. Mas também basta das a ele uns goles de cerveja que a enfermidade cessa quase que num passe de mágica... Acho isso muito estranho.
Puxa vida, como escrever é chato. Por isso meu velho vivia reclamando das coisas. Isto realmente aborrece de verdade. Mas preciso continuar, pois se ficar parando para tomar cafezinhos, e comer bolachinhas, e assistir aos programas de fofocas que passam na tevê, e olhar a vizinhança fofocando nas janelas ou andando feito baratas tontas pelas ruas certamente me dará vontade de cuspir nela, e aí, então, não escreverei nada. Coisa esta que também não fará diferença alguma na vida de quem ler ou deixar de ler isto que escrevi.
Sabe, a vida está passando sem grandes diferenças, quero dizer, até está, pois agora quem está saindo nos cafés sou eu. Logicamente que acompanhado pelas crianças e por minha filha e seu marido, sim, aquele trambiqueiro que vivia se envolvendo em... Trambiques, claro, e sempre que podia avançava no dinheiro do Baltazar. Mas tudo bem, deixa para lá. Agora a vida tomou rumos diferentes... Ai, ai... Bom, deixe-me pular esta parte senão meus olhos ficam marejados. Ah, voltei a bordar umas toalhinhas. Estão ficando lindas, apesar de serem horríveis, pois as ganhei de uma conhecida do mesmo prédio onde moramos... Uma chata, isso sim.
Olha, já não sei mais o que escrever, esgotou todo o assunto, esgotou todo meu vocabulário. Estou esgotada, sem ação, sem emoção, sem o Baltazar e com umas lágrimas insistindo em cair... Diabos! Que grande bobagem isto, chorar pelos outros. Realmente não faz meu estilo. Sei, sei, sinto saudades dele, concordo. Principalmente por que ele era o único que eu podia bater gostoso com qualquer coisa que tivesse em minhas mãos que não reclamaria. Chiava vez por outra, mas era divertido ver as cenas, as poses, ou sei lá o que mais que surgiam ao longo dos espancamentos. Mas é isso, cansei, definitivamente cansei de escrever. Contudo, certamente nos encontraremos mais vezes. As crianças querem aparecer também, coisa que o meu velho não permitia por se tratarem de jovens. E jovens tinha o mesmo significado de coisa burra para ele. Tudo bem... Não concordo plenamente com este tipo de pensamento... Mas... É isso. Até qualquer dia.
Mas querem saber de uma coisa? Ando sonhando com o Baltazar constantemente. Parece até que ele está vivo, ou coisa parecida, sei lá. Noite dessas escutei alguma coisa arranhando os vidros da sala, e quando fui averiguar vi o gato saltitando todo alegre de um lado para outro como se... Ah, sei lá. Está certo que tem algo estranho no ar, e não é do cheiro dos peidos do Pereirinha que dorme pendurado no lustre da cozinha junto com alguns morcegos, borboletas, moscas e mais uns bichos que não sei que devam ser. Mas... Tudo bem. Ah, tem outra coisa; sabe que a polícia estava bisbilhotando sobre a morte do meu marido? Especulavam sobre eu ter envenenado ele e coisa e tal. Olha, na verdade, o que talvez tenha causado um colapso em seu intestino tenha sido a seção de lambidas que deu em toda a minha cara quando tinha acabado de passar um creme à base de um ácido com não sei o quê. Coisa de mulher sabe? E agora fica essa gente xeretando, mas sabe o quê? Que se danem todos.
Estas figurinhas surgiram no meu sonho noite dessas para procurar alguma coisa perto da lápide do Baltazar. Muito estranho.
Aqui, o bichano, após as seções de arranhadas nos vidros da sala, da cozinha, na porta da geladeira... não consigo entender este bicho. Parece louco. Só se dava bem com meu marido... realmente muito estranho. Oiram Bourges - 21:14 para cima
Quinta-feira, Novembro 02, 2006
Os dias passaram, a semana passou, tudo passou, menos eu. Fiquei a semana inteira deitado, ruim do estômago, da cabeça, dos pés, dos pensamentos. A vida passou pelas minhas ventas enquanto ventava com meus peidos ventosos. Meu quarto exalava a chope, a cachaça, a uísque, a vodca, a rum, a vinho, a água tônica com limão e a urina, fora o aroma intenso de vômito espalhado pelo cômodo. Um horror. Sem visitas, ligações ou insultos para me importunar a vida. Ainda bem. Falando em vida, ela parecia estar se esvaindo pelas minhas entranhas mal lavadas, e, por conseguinte, mal cheirosas também. E isto estava bastante perceptível, tanto por mim quanto para os de meu lar. Um horror.
Sentia-me assim, meio podre, meio mole, meio bundão, mas tudo bem.
Aromas se misturavam sem o menor pudor no quarto e no apartamento. O cheiro de canja que faziam para mim se misturava ao do peido, do feijão se misturava ao do pé-de-moleque, e assim por diante... Um horror. Quanto a mim; deitado, imóvel, quase imperceptível pelos outros naquela casa. Um horror. Vez por outra eu ouvia choros, risinhos e risadas vindo de outros lugares de meu lar. Merda! Será que ninguém respeita os outros aqui? Gritei não sei para quem. Aliás, ao longo desses dias havia mais conversas, risos, choros e anedotas por todos os lugares. Decididamente; não havia respeito naquela morada. Devia ser uma, ou uma dúzia daquelas fofoqueiras amigas da Olga que não paravam um só instante de matraquear.
A fofoca rolava solta pelas bocas moles de fofoqueiras.
Falando em Olga, dia desses senti um cheiro de aspargos vindo da cozinha... Nem veio me oferecer um pouco. Ninguém veio me oferecer nada. Ninguém me oferece nada. Jamais me oferecerão alguma coisa. Pensei em chamar algum dos meus amigos para uma visita. Assim, quem sabe, eu me distraia um pouco com aqueles malucos. Sabe; já estava cheio daquilo tudo; o aroma podre que se desprendiam dos meus sapatos, o azedo encalacrado nos lençóis, nas cortinas, na minha pele, na minha alma. Enfim, em todos os lugares tinha meu cheiro... Ainda bem, pelo menos conseguia me identificar com alguma coisa.
Aromas fortes, aromas fracos... enfim; aromas.
Tudo soava diferente, tudo soava estranho, tudo soava indecoroso, tudo soava destoante. Nada daquilo que eu via espalhado pelo quarto era meu. Assim que me indignei a observar, isso depois de horas e horas olhando o nada acontecer, digo, as moscas e as aranhas e me roerem diminutamente, percebi que estava trajando uma roupa, que até então não eram minhas. Pensei que fosse algum presente, mas depois pensei que fosse alguma roupa emprestada depois da bebedeira lá no bar do Odil. Mas isto também me pareceu estranho, pois ninguém veio cobrar a tal roupa emprestada... Mas e a minha roupa, o que aconteceu? Preciso informar que esta eu não gostei. Decididamente não gostei disto. Muito larga... Muito estreita também... Muito clara, ou talvez muito escura... Muito... Ah! Não gostei... Quero outra. Que vão trocar na loja, pois não gostei. Decididamente não gostei. Um horror.
Com uma roupa dessas você quer o que também? Logicamente que se eu pudessa tirá-la de mim assim o faria, mas...
Estava eufórico, estava enojado de tudo aquilo. Não conseguia me mover. Miseráveis! Ninguém vem me visitar é? Pensei aos berros enquanto tentava coçar o vão dos dedos do meu pé esquerdo. Vai ver foi alguma daquelas malditas moscas que cagou no meu pé. Continuei pensando. Diabos! Por que será não consigo me mover? Aquela situação me deixou muito, mas muito pensativo. Vez por outra ouvia rojões estourando nas ruas. Festa? Algum gol feito? Por quem? De quem? Perguntas surgiam sem parar em minha clausura inexplicável.
Eu sentindo frio, deitado, sentindo coceiras contínuas no meu pé esquerdo. Maldita coceira. Contudo, lá pelas tantas senti um cheiro mais forte de peido. Pensei que fosse meu cunhado, aquele metido a inglês, que come aquelas salsichas enormes com mostarda preta e outras coisas densas, saborosas e medonhas. De repente surgiu na minha frente um sujeito vaporoso dizendo umas coisas que não consegui entender no início, mas depois de alguns ajustes nos compreendemos... Quero dizer, não entendi nada. Falava ele de coisas que nem de longe faziam sentido para mim. Enfim; falava ele só de asneiras. Deve ser típica de sujeitos vaporosos.
Assim, deste jeito o tal veio até mim para me buscar. Sinceramente; medrei.
Disse-me ele, depois de muitos arrotos com aromas de lingüiça frita e cerveja quente:
-- É meu velho, você se ferrou mesmo heim! Disse-me assim o tal sujeitinho com voz arrogante enquanto ouvia uma música que tinha ares de Taj Mahal.
-- Que cheiro é este? Perguntei-lhe assim, deste jeito.
-- Ora meu velho Baltazar, este é o aroma que te aguarda. Puro, simples, sem frescuras... Gosta de voar? Imitar passarinho e coisa e tal? Perguntou-me assim o sujeito enquanto coçava seu saco enorme.
-- Não sei, nunca voei, nunca imitei passarinhos... Mas que merda de papo furado é este? Estava ficando eufórico com tudo aquilo.
-- Nada não, deixe pra lá. Respondeu-me assim o tal tipinho enquanto trocava de música, pois aquela outra já estava enchendo as paciências tanto minha quanto dele.
-- Veja que coisa boa; não precisará ficar mais aqui aturando essa gentalha toda. A vida, digo, a morte é muito mais que isso. Você poderá ouvir, se quiser, toda a minha coleção dos Beatles, ou do Tom Waits... Se quiser, é claro.
-- Como assim, morte? Categoricamente falando, aquele papo soava estranho por demais. Mas continuei investigando, dentro da minha capacidade de compreensão. -- Diga-me, você é Deus? Perguntei assim, sem rodeios.
-- Oh, não! Quem dera. Sou apenas um mensageiro dele. Disse-me assim todo pungido.
-- Sei, sei... Então não quero nada disso que me ofereceu. Só aceito se for do próprio Deus. Estranhamente respondi assim. Digo estranhamente por que tanto fazia este ou aquele na situação em que me encontrava. Contudo...
-- Valha-me então... Porra! Disse assim uma voz grossa, rouca, e cheirando uma mistura de algodão doce com churrasco. -- Ei, Baltazar! Falou-me assim a tal voz que vinha não sei de onde, e ainda, acompanhada de um cheiro de peido mais forte que a do mensageiro.
-- Pois não! Mostrei-me solícito, esperando com que tudo aquilo fosse um mero engano, ou sei lá o quê. No entanto, não conseguia disfarçar meu asco pelo forte cheiro de repolho azedo misturado com ovos pelo quarto.
-- Tudo bem, estou aqui. Qual é o galho? Você não me queria aqui? Pois cá estou, mas... Espere um pouco... Só mais um pouquinho... Ah, tudo bem. Esta é a melhor parte da música que acabei de ouvir. Sabe, agora estou ouvindo umas músicas em mp3... Mas não me desfiz de minha infindável coleção de vinil. Está toda lá, na minha casa. Devo ter uns 50.000 discos, sei lá. Foi um chute. Na verdade quem cuida, cataloga e coisa e tal é um anjinho meio boiola, tipo CDF, incumbido por mim, para esta missão. Mas... Quer um licor... Um vinho... Uma cerveja então... Que tal? Se quiser venha comigo, mesmo por que você não tem outra opção além desta. Teu negócio é me acompanhar. Teu tempo aqui, neste mundinho de merda já acabou meu caro. O lance agora é outro. Explicou-me assim, o todo poderoso.
Enquanto isso a folia em casa ultrapassava todos os limites. Até a polícia baixou por lá para amansar o pessoal que estava ensandecido. Uns gritavam de paixão, de falta, de saudades, de amizade e de amor, e outros gritavam de alegria pelo momento tão especial, no caso: a minha morte. Malditos! Espero que os quitutes que estão comendo façam mal em suas barrigas flácidas, pensei assim. Mas depois mudei de pensamento... Quis que realmente eles ficassem mal da barriga mesmo; com hemorragias internas e coisa e tal. Com dores que os fizessem se contorcer todos. Seria minha vingança.
Mas espera aí; estou morto!!! Porra! Como isto é possível? Pensei. O que fiz de errado para isto acontecer, continuei pensando nesta maluquice toda. Só posso estar sonhando, ainda pensando fervorosamente sobre o assunto. Daqui a pouco acordarei e tudo terá passado, insisti neste pensamento incompreensível. Um tempo depois alguém veio me ver deitado. Era uma criança imbecil com um sorvete imbecil pingando imbecilidades nos meus pés só para ver se acontecia alguma coisa. Sinceramente falando; quis esganar este pestinha. Ai, que raiva. Não poder fazer nada enquanto os outros abusam de uma incapacidade irreversível.
-- Como é Baltazar, vem ou não vem? Deixe este teu corpo moribundo apodrecer junto com este povo moribundo também. Eles não prestam. Você é melhor... Então deixe isto para lá, esqueça, pois é tudo uma grande besteira. Tudo isto já era, é passado. Disse-me assim Deus enquanto se inclinava para, discretamente, emitir um singelo peidinho apertado e sufocado. -- O lugar para onde vai agora é muito melhor. Portanto, erga esta cabeça um tanto quanto carunchenta e acabada, e venha comigo. Você certamente vai gostar. Tem uns caras que fazem um rock da pesada lá no meu pedaço. Ah, tem também uns mestres cervejeiros que te deixarão boquiaberto com tanto sabor que colocam nessas bebidas maravilhosas. Mas... Tem que vir comigo, e agora. Insistiu o bam, bam, bam dos bam, bam, bans.
-- Bom, neste caso, tudo bem... Tem charuto por lá? Sabe, isto de vez em quando vai bem. Expliquei-me para Ele.
-- Ora, claro. E dos melhores também. Tudo coisa boa. Mas agora dê cá a tua mão para seguirmos caminho. Porém, antes vista este traje. É necessário que você vista esta roupa, ela é própria para este fim. Evita que você se queime ou se congele ou tenha piripaques e transtornos desnecessários. Zicas estas que me aborrecem por demais.
-- Tudo bem, eu visto, mas cá para nós... Ela é ridícula. Botas prateadas, calças amarelo-limão fosforescentes, blusa cor-de-rosa, luvas cheias de graxa e um boné todo colorido parecendo um dançarino de funk, break, ou sei lá que merda de estilo musical isto pareça ser. Mas, se é para me proteger de tais problemas, vestirei esta coisa. Mas peço para que pare de rir de mim. Acabei de morrer, tenha respeito, oras. Esbravejei assim a Ele.
O cara é esperto mesmo, se aproveitou da minha fraqueza por coisas boas para me conquistar. Tudo bem, eu valido esta idéia.
Enquanto isso, na sala de casa, o Azambuja arrastava as cadeiras de um lado para outro freneticamente. Além do horroroso costume, era nítido seu nervosismo. Afinal de contas fomos amigos por um longo tempo. Já o Pereirinha chorava de cabeça para baixo, dependurado junto com os morcegos, borboletas, moscas, pernilongos e sei lá que mais tinha no lustre da cozinha. Aquela minha garrafa de uísque de quinze anos já estavam bebendo sem o menor pudor. Malditos. Eu nem cheguei a provar desta garrafa. Mas tudo bem, espero que passem mal por isso algum dia.
Lá pelas tantas chegou uma equipe de televisão para noticiar minha morte. Disseram que iriam fazer uma grande reportagem, mas no final das contas não filmaram nada e ainda, terminaram de matar a tal garrafa de uísque quinze anos. Depois comeram uns salgadinhos e caíram fora sem se despedir de ninguém. Tudo bem, em outro momento farei o automóvel ridículo deles capotar em alguma curva. E para completar chegou a turma da funerária cheia de pressa. Queriam a todo o custo me colocar no caixão e levar o quanto antes para o cemitério. Alegaram terem de ir à festa anual dos agentes funerários mais tarde. Também farei de tudo para eles se ferrem em algum momento de suas tolas vidas.
O que você faria se visse um pessoal estranho consumindo tuas coisas boas sem pedir permissão? Eu já nem sei mais o que faria.
Mas tudo bem, não tinha mais nada ali para eu fazer mesmo. Além do mais, estava ansioso e até eufórico para provar das magníficas cervejas que o mestre dos mestres me propagandeou. A pressa me impulsionava a abandonar o mundo que vivi todos os meus dias loucamente sem muito pestanejar. Por outro lado via tristeza nos olhos de meus familiares e amigos. Coisa esta que me deixou com dois tipos de sentimento; o primeiro deles animado por saber que ficaram assim pela minha morte, e o segundo ligeiramente triste por saber que tinha morrido de fato. Mas isto também já não me importava mais. O impacto inicial consegui vencer, que foi o susto, ou o medo, ou sei lá. Depois a idéia foi absorvida com certa complacência.
-- Então Baltazar... Pare de olhar para as bundas das ninfetas celestiais e vamos embora. Você olha demasiadamente para os lados, isto o faz tropeçar a todo instante. Sorte tua que não se machuca mais, por que senão estaria com os joelhos todos esfolados... Eia, bundinhas! Este aqui é o Baltazar, o velho Balta... Meu chapa. Cuidem bem dele heim. Disse assim Deus, aos berros, às meninas serelepes que saltitavam com suas roupas sumárias pelas nuvens. E eu, em festa. Com um enorme caneco de uma inigualável cerveja nas mãos e ouvindo um pessoal tocando umas músicas de primeira, paquerava aquelas safadinhas que rebolavam ao meu redor. Decididamente aquilo sim é que é vida, pensei. Quanto aos outros que ficaram no mundinho... Um dia voltaremos a nos encontrar. E quando isto acontecer faremos outra baita festa por aqui. E logicamente, regada com a melhor das cervejas.
A festa estava para começar. Ai, ai, que coisa boa.
Porém, no antigo cenário de minha vida a história estava complicada. O sol ardido era um prenúncio de chuva, e o pessoal se alvoroçava nos corredores do cemitério, se acotovelavam sem parar. Bom, azar o deles. O Azambuja, por não conseguir arrumar as tampas dos túmulos quando os encontrava mal encaixados urrava feito doido. O Pereirinha saltava de um túmulo a outro como se estivesse em máquinas de teletransporte. O Adalberto com seu rádio de ondas longas, ondas médias, ondas curtas e almost waves ouvia em bom volume umas músicas dos Tindersticks para embalar o cortejo. A Olga, os netos e a sobrinha choravam feitos não sei o quê. Que bobos. O Odil mais o pessoal do Distinto distribuíram chope para a moçada que lá estava. Os músicos do bar desta vez não tocaram... Isto por que a administração do cemitério não permitiu. Que bobeira não permitir este tipo de coisa. Enfim, o que fazer numa hora como esta.
Bom, nem preciso dizer que mais fogos estouraram pelas ruas no instante de me largarem no buraco. Até o prefeito e o ex-prefeito de Curitiba vieram prestar suas últimas homenagens. Pura coisa de político que não tem o que fazer. Mas tudo bem, não veria mais esta gente mesmo. Então, sem problemas. Contudo, depois que o cortejo fúnebre se desfez em sepultamento e coisa e tal todos foram embora ao som de choros, risinhos. Além das mazurcas piradas que tocavam no rádio do Adalberto no momento da derradeira despedida. Emoções fortes à parte era tempo de se desligarem de mim. Arre. Que encheção de saco tudo isso.
Após todos saírem num bloco compacto de trajes negros o coveiro se atirou sobre meu esquife e rebentou o cadeado que tinha na tampa. O motivo era simples, tirar toda a minha roupa. Se assim o conseguisse seria ótimo, pois não gostei dela mesmo. Parecia até roupa de defunto. Porém, o ignóbil ser fuçador de terras não alcançou seu intento pelo fato de estar costurada em meu corpo. E por isso, tomado de uma ira incontrolável chutou meu saco, deu um tapa na minha cara, além de cuspir em mim... Miserável. Um dia te pego. Ô coisa horrível esta que os pobres de espírito têm. Por esta, entre outras coisas, nunca vão sair do lodo onde se encontram. E tem mais, o dia que tentarem sair desta situação não deixarei também. Pode apostar nisso.
Mesmo depois de morto os outros não nos respeitam... mas que bosta.
Uma pausa insignificante para um café sem gosto... um riso sem alegrias.
Uma rápida passadinha pelo purgatório... sabe que até me deu vontade de permanecer naquele lugar, mas segundo o chefão seria melhor continuar com a viagem. Tudo bem.
Uma nova vida surgia em algum canto do mundo para acalmar os ânimos.
Quanto a mim; estava plácido. Despedi-me de meu mundo sem fazer alardes. Despedi-me de todos e saí. Saí pela porta dos fundos, para não fazer barulho.
FIM
Oiram Bourges - 01:14 para cima
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